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O legado histórico e literário de Carolina Maria de Jesus

A representatividade da mulher no ambiente literário vem sendo debatida recorrentemente nos meios acadêmicos, por escritores, intelectuais e outros estudiosos do assunto. Em se tratando de um tema muito relevante, aproveitamos este dia 14 de março, que remete ao nascimento da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), na cidade mineira de Sacramento (MG), para comentar o legado histórico e a expressão literária que marcam a sua trajetória.

“A escrita diarística nos confirma como Carolina sempre se mostrou interessada em escrever ficção e ser conhecida como autora de romances, mais do que de diários. Os temas encontrados neles são também notáveis em sua ficção”, diz Aline Alves Arruda que é mestre e doutora em Letras pela UFMG e autora de “Memorialismo e resistência: estudos sobre Carolina Maria de Jesus” (Paco Editorial, 2017).

Carolina Maria de Jesus era catadora de papel e uma escritora anônima até ser descoberta, por acaso, no final dos anos 50, na favela do Canindé, onde morava, na capital paulista, pelo jornalista Audálio Dantas (1929-2018), que fazia uma reportagem para o jornal O Estado de São Paulo.

Com ela o repórter descobriu o inusitado conteúdo, que impressionou a todos quando Carolina lançou o seu primeiro livro “Quarto de Despejo – diário de uma favelada”, baseado em um diário que continha os registros que fazia do dia a dia da comunidade em cadernos que achou no lixo e que guardava em um saco de pano.

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Lançado em 30 de agosto de 1960, o livro rapidamente bateu dois recordes. O primeiro foi em relação ao número de exemplares vendidos: em ano foram mais de 100 mil, conforme relato de Rebeca Fuks, doutora em Estudos de Cultura. No lançamento da primeira edição a autora vendeu mais de 500 livros, num período em que a média era de 40 ou 50 nas livrarias.

Outro grande feito da autora é o fato de que “Quarto de despejo” figurou, no Brasil, no topo da lista de obras mais vendidas entre autores estrangeiros e nacionais. O livro de Carolina Maria de Jesus ficou à frente de “Gabriela cravo e canela”, de Jorge Amado; e “Furacão sobre Cuba”, de Jean Paul Sartre.

Sob a ótica cultural e literária, a obra de Carolina Maria de Jesus, escrita entre os anos de 1955 e 1960, representou, à época, uma quebra de paradigmas de um meio intelectual considerado conservador.

“Quarto de despejo” se destaca tanto do ponto de vista de documento quanto da criação, dizia Audálio Dantas, devido à força e a inteligência com que a escritora descrevia e interpretava o ambiente hostil do local onde residia. “Escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história: a visão de dentro da favela”, comentou o jornalista.

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Oriunda de um contexto de extrema pobreza, a autora promoveu uma quebra de tabu, que, segundo o biógrafo, escritor e jornalista Tom Farias, vai dar à sua imagem, sobretudo com a publicação do livro, o sentido simbólico da virada social a que a sociedade precisava ser submetida.

“Carolina colocou o dedo na ferida. Esse arrojo para dar toques nem sempre sutis, é o que marca a sua trajetória e a transforma na escritora que vai projetar o conceito de ‘favelização’ para o Brasil e para o mundo”, afirma Tom Farias, que é autor do livro “Carolina – uma biografia” (Ed. Malê, 2018).

Após o lançamento, “Quarto de despejo” também ganhou fama internacional, em uma reportagem da revista “Time”. Mas, apesar de ter recebido boa recepção da crítica, o livro chegou a ser contestado. Houve dúvidas, inclusive, sobre a originalidade do texto, que atribuíam a Audálio Dantas, que, na verdade, somente organizou e revisou a obra.

Em meio a esse debate, muitos renomados escritores saíram em defesa da autenticidade do texto de Carolina, entre eles Manuel Bandeira: “Ninguém poderia inventar aquela linguagem, aquele dizer as coisas com extraordinária força criativa, mas típico de quem ficou a meio caminho da instrução primária”.

A despeito de toda essa polêmica, se o livro escrito por uma mulher negra e favelada pode ser ou não considerado uma grande obra literária, “Quarto de despejo” foi traduzido em 14 idiomas, virou peça de teatro, e, recentemente, ganhou uma versão em história em quadrinho.

Carolina Maria de Jesus lançou outros livros: “Casa de alvenaria” (1961), “Pedaços de fome” (1963), e “Provérbios” (1963). Após a sua morte, em 1977, foram publicadas suas obras póstumas. “Diário de Bitita” (1982), que apresenta relatos da infância e da juventude da autora, foi publicado primeiro na França.

Depois, foram editados “Um Brasil para brasileiros” (1982), “Meu estranho diário” (1996), “Antologia pessoal” (1996), “Onde estaes felicidade” (2014), e “Meu sonho é escrever – contos inéditos e outros escritos” (2018).

O debate sobre a importância literária de Carolina Maria de Jesus continua aceso. Isso porque, como observa Tom Farias, é significativo constatar que a autora conseguiu, mesmo com pouco domínio da língua portuguesa, “representar o anseio de mulheres e homens no Brasil e no mundo, levando uma mensagem que é ao mesmo tempo o portal de abertura de consciência, de fé em si e na luta por transformação”.

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